17 de Dezembro de 2017, 21:17

Seminário internacional traça metas entre quatro países pela conservação do Bioma Pampa25/04/2014

Fonte: Simone Rocha e Hélio Gama Neto
Momento histórico: secretário Neio Lúcio Fraga Pereira e representantes do Uruguai, Argentina e Paraguai
Momento histórico: secretário Neio Lúcio Fraga Pereira e representantes do Uruguai, Argentina e Paraguai - Foto: Martha Reichel

No encerramento do Seminário Internacional do Bioma Pampa, realizado em Porto Alegre nesta quarta (23) e quinta-feira (24), representantes do Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai produziram uma Carta de Manifesto na defesa da conservação dos campos nativos da América do Sul. No documento, fica clara a intenção de mudar o atual cenário na região de forma constante.

Uma das maiores preocupações dos participantes do encontro e dos principais pesquisadores e gestores públicos em relação ao Bioma Pampa aponta que a perda da biodiversidade compromete o potencial de desenvolvimento sustentável da região, seja pela perda de espécies de valor forrageiro, alimentar, ornamental e medicinal, ou pelo comprometimento dos serviços ecossistêmicos. Estes serviços, fundamentais para a agricultura, pecuária e populações residentes desse território, só estarão garantidos quando as variáveis ambientais forem incorporadas, de maneira sistemática, nos projetos de desenvolvimento.

De acordo com a carta-manifesto, esses serviços, fundamentais para a agricultura, pecuária e populações residentes desse território, só estarão garantidos quando as variáveis ambientais forem incorporadas, de maneira sistemática, nos projetos de desenvolvimento. O documento destaca que, diante dessa realidade, os governos dos quatro países mobilizam-se para buscar soluções viáveis e cooperativas para conservação dos ambientes campestres desse território.

Dentre as iniciativas, algumas em execução como, no Brasil, o Projeto RS Biodiversidade, que busca compatibilizar atividades produtivas e conservação da biodiversidade. Pode-se citar, ainda, a Alianza del Pastizales, que finalizou a construção de um índice de conservação dos campos nativos para os quatro países, ambos projetos em fase final de execução.

Entre os encaminhamentos do documento está a intenção de dar seguimento ao acordo entre os ministérios de meio ambiente dos países do Mercosul, firmados na COP 11, na cidade de Curitiba (PR), em 2006, que estabelece um projeto regional conjunto para a fase 6 do GEF, objetivando a conservação e uso sustentável dos campos nativos.

A carta expressa ainda que, com o propósito de objetivar as ações em prol da integridade dos ecossistemas naturais dos campos nativos, os participantes dos quatro países apontaram a necessidade de fortalecer as ações conjuntas e, por conta disso, propuseram os seguintes encaminhamentos a serem desde já perseguidos e implementados a curto, médio e longo prazo, que podem ser lidas neste link.

Documento será entregue ao MMA

Como equacionar o crescente aumento populacional no mundo com os fatores do sistema econômico e do impacto ambiental? Como preservar os campos nativos existentes na regiãodo Pampa? Esses foram os focos das palestras que ocorreram no último dia do Seminário Internacional Bioma Pampa, que reuniu brasileiros, argentinos e uruguaios para discutir a situação atual e as alternativas para se enfrentar o presente e o futuro da região. Desse evento é que foi aprovada uma carta-manifesto com uma síntese de todos os debates, cujo teor será encaminhado ao Ministério do Meio Ambiente.

“São propostas que representam os povos da América do Sul”, afirmou o secretário de Meio Ambiente do RS (Sema), Neio Lúcio Fraga Pereira. O secretário de Estado reiterou a importância do evento e seus respectivos encaminhamentos, com na participação de autoridades dos quatro países do Bioma Pampa. Participaram do evento o ministro de Planificação e Ambiente da Argentina, Hernan Miguel Brunswig, o vice-ministro de Pecuária do Paraguai, Luís Antônio Goiburu, o diretor do Sistema Nacional de Áreas protegidas do Uruguai, Guillermo Scarlato, além de representantes do Ministério do Meio Ambiente brasileiro.

“Esse encontro significa a unidade dos povos do Mercosul para construir com irmandade um grande projeto para a América Latina, oferecendo a possibilidade de garantia de qualidade de vida à população e o desenvolvimento sustentável”, declarou Neio Lúcio Pereira. Importância da biodiversidade

É possível avaliar a importância da biodiversidade no dia a dia? Conforme a doutora em Biogeografia, que integra o quadro da Fundação Zoobotânica, Luiza Chomenko, sim, é possível. É a biodiversidade que garante que os alimentos cheguem à mesa de cada um, com a segurança alimentar desejável. É pela biodiversidade que obtivemos a lã que nos abriga no inverno ou nos veste a cada dia com roupas de algodão. É a biodiversidade que possibilita a contemplação de belas paisagens. “É preciso conservar o Bioma Pampa para evitar o declínio, cada vez maior, dos serviços dos recursos naturais, que são a base de construção de uma sociedade equitativa, segura e sustentável”, disse Luiza.

Segundo ela, uma sociedade que preconiza o desenvolvimento sustentável terá que gerir o desenvolvimento e crescimento populacional de forma equilibrada; terá que satisfazer as necessidades da população sem porem risco as gerações futuras; terá que empenhar-se em promover e praticar políticas e práticas sustentáveis por um longo período de tempo; e deverá assumir as responsabilidades com gerações atuais e futuras. “O momento é crítico. Ou inovamos na implantação de modelos de gestão ou corremos o risco de perder os valores históricos, culturais e evolutivos”, completou Luiza.

Valoração da riqueza ambiental

Promovido pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente e pela Fundação Zoobotânica, na Assembleia Legislativa, o evento abordou no segundo dia de debates os aspectos econômicos no que se refere ao Bioma Pampa. De acordo com o diretor do programa de pós-graduação em Economia Ecológica da Universidade da Argentina, Walter Pengue, doutor em Agroecologia, o cenário mundial da atualidade requer que o homem volte a gerenciar o planeta de forma consciente, e os processos agrícolas são fundamentais para isso e merecem atenção ao caminho para os quais estão seguindo.

A missão, hoje, é apostar na economia verde, promovendo a qualidade de vida com desenvolvimento sustentável. Para ele, mesmo que hoje algumas culturas agrícolas, como a soja, possam dar a ilusão de um ganho financeiro maior, é preciso ver o custo social disso. "O cultivo da soja transgênica marca o processo de transformação forte e degradante dos recursos do solo, gerando uma série de problemas", alerta o estudioso. "Mais do que abordar apenas o aspecto da economia, é necessário, urgente, uma política pública para salvar o sistema ambiental, melhorando em escalas locais o processo de produção. Caso contrário, o tsunami chegará aqui", ressalta Walter Pengue.

A pesquisadora da Fundação de Economia e Estatística (FEE), Clitia Helena Martins, economista e doutora em Sociologia, há décadas vem se falando em quebrar o paradigma da economia convencional. Agora, segundo ela, é hora de agir e avaliar quais os custos sociais e ambientais de um desenvolvimento desenfreado, que, muitas vezes, mantém os recursos em mãos estrangeiras. "Precisamos de indicadores do metabolismo social, que avaliem os custos ambientais e sociais. Estamos perdendo ativos da biodiversidade e não levamos isso em conta", avalia.

A base do sistema de valoração poderia, segundo ela, valer-se da experiência de cálculos aplicados em multas ambientais, por exemplo. Quando o caso é de destruição da mata, avalia-se o quanto se perde ali. Mas o que o Pampa tem de valor? A pesquisadora mesma lançou o questionamento. Além de todo poder ecológico tem uma trajetória de uma rica biodiversidade e também a cultura de uma população. É preciso manter as pessoas no campo, oferecer alternativas, escolas, universidades, serviços. A condição humana é o que importa, sua qualidade de vida. Com saúde. Sem a presença dos maléficos agrotóxicos presentes em muitos cultivos de lavouras.

É como o professor uruguaio Walter Pengue destacou "sem gente não há nada", por isso a necessidade de um sistema produtivo sustentável. O grande desafio dessa questão é transformar a conservação ambiental, seus biomas, em estratégias de crescimento. É o que destacou o pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, Marcos Borba, doutor em Sociologia, Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável. Segundo ele, o Pampa é diverso, mas hoje existe pouco mais de 30% de sua cobertura original. "Em 20 anos não teremos mais o que discutir. Não existirá mais Pampa", atesta, indicador a necessidade imediata de reversão do atual quadro. Conservar, para ele, é fundamental para a economia, pois é do campo que se obtém a carne, o leite, a lã e também o bem estar das pessoas, que ganham o equilíbrio do clima, a oferta de água, a biodiversidade, o sequestro de carbono e a cultura.

Marcos Borba concorda que é preciso valorar essa riqueza ambiental, conectando as três dimensões, discutidas durante o seminário: os valores culturais, biológicos e econômicos. "É preciso que as políticas públicas sejam revisadas para não vermos o fim do Bioma Pampa", indica, lembrando que hoje todos querem se diferenciar no mercado, para se sobressair do comum e alcançar sucesso, e isso deve ser aplicado na questão ambiental. "O desenvolvimento sem identidade é fazer a mesma coisa em todos os lugares. O momento é que todos os esforços busquem o diferencial. Hoje o que parece ser um ganho, como no cultivo de soja, terá um reflexo negativo com surgimento de problemas futuros. As despesas serão superadas pelos ganhos", avalia.

A solução? Para Marcos Borba uma delas seria o estabelecimento de metas de unidades de produção com recursos renováveis, promovendo o processo de transformação positivo. Isso já tornaria o Pampa um ambiente distinto, diferente. "As civilizações que se extinguiram não conseguiram antever o colapso que viria em 30 anos", lembrou. Alternativas com cases de sucesso O processo de valoração dos campos nativos já foi iniciado na região do Pampa, quando, em 2007, produtores agropecuário e ambientalistas deram uma trégua nas discussões acerca do assunto e fundaram a Alianza del Pastizal, que reúne ONGs, produtores, ambientalistas e governos do Rio Grande do Sul, Argentina, Uruguai e Paraguai.

“Este projeto nos permite compartilhar problema e soluções dos quatro países e agora vivemos um momento muito importante, de trazer o poder público para os debates a fim de formar políticas públicas comuns para incentivar a produção rural e conservar os campos naturais”, disse o coordenador do Projeto de Incentivos aos Produtores Rurais do Banco Mundial, para a Alianza del Pastizal, Aníbal Parera. A plataforma conjunta possui um índice de contribuição de conservação de campos nativos, pela qual é possível, qualificar e pontua as propriedades que cultivam seus campos, com indicadores numéricos medidos de forma técnica e científica, para avaliar como os produtores estão cuidando de seus pastos. A iniciativa já possui bons resultados, conforme o coordenador regional da Alianz del Pastizal, Nicolás Marchand Abal, doutor em Manejo Ambiental. Segundo ele, no Uruguai, já existem linhas de incentivo ao mercado e um protocolo de certificação de carne, que dá valor ao processo de produção.

Na Argentina, por um trabalho específico com a carne certificado, já começa a prosperar a exportação de carne bovina para a Europa. Uruguai e Brasil terão seu primeiro resultado efetivo dessa parceria no dia 26 deste mês, quando ocorrerá o primeiro remate com gado proveniente exclusivamente de campos nativos, monitorados por essa aliança. O evento será em Lavras do sul. Integrante dessa aliança regional, a pousada de campo La Salamora, no Uruguai, é uma das propriedades que cresceram com a conservação da biodiversidade. Segundo a proprietária da pousada, que também é vice-presidente da Sociedade Uruguaia de Turismo Rural, o local já recebeu turistas de 28 países diferentes, em oito anos de atividade. A propriedade também integra o programa uruguaio de incentivo ao turismo chamado Uruguay Natural, que valoriza tudo o que o país oferece, entre essas ofertas, a conservação dos campos.

Na La Salamora os turistas participam do manejo no campo, que foi regenerado, recebem orientações de educação ambiental, participam de caminhadas e cavalgadas por trilhas entre a mata preservada e testemunham o que muitos estudiosos indicam como fundamental: passam a ter um sentimento de pertencimento, ao vivenciar o campo natural. Pelo Rio Grande O RS também apresenta cases de sucesso na valorização de sua biodiversidade. O projeto Uso Sustentável de Butiazais no Pampa Brasileiro e Uruguaio demonstra o resgate de uma cultura que estava quase esquecida: o cultivo de butiá. Seja como nova alternativa de renda, seja na conservação do sistema.

Conforme a pesquisadora da Embrapa, Rosa Lia Barbieri, doutora em Genética e Biologia Molecular, o butiá, por muito tempo, promoveu além de sua função alimentar um processo de fomento econômico, já que as fibras da fruta eram usadas na confecção de colchões e estofamento de sofás, por exemplo. Porém, na década de 70, como advento da indústria petroquímica, essas fibras deixaram, de ser utilizadas e a produção dos butiazais foi esquecida. Recentemente essa árvore passou a receber atenção especial, entre elas o resgate do seu uso em artesanato, non município de Giruá, assim como o cultivo de butiazais em Santa Vitória do Palmar. “É uma árvore com inúmeras utilidades: produz alimentos para o homem e a fauna, tem um grande valor ornamental para o paisagismo, é um habitat para muitos animais, e nos remete à cultura do gaúcho, que sempre lembra do butiá como o fruto que se associa à cachaça”, indica Rosa Lia.

Além disso, ela destaca que seu cultivo tem produtividade alta, com capacidade de uma árvore produzir até quatro cachos, com cerca de 1.000 frutos. É possível produzir um total de 23 toneladas de frutas por hectare. “Estudos indicam uma grande variação de vitaminas na fruta, assim como potássio e seu poder antioxidante”, revela. O Estado também avança no tema de conservação da biodiversidade com o projeto RS Biodiversidade, que envolve 33 municípios diretamente, principalmente da região do Pampa, que tem três objetivos fundamentais: promover a biodiversidade em programas rurais, já implementado em inúmeras propriedades; fazer o gerenciamento da biodiversidade; e promover o fortalecimento das quatro instituições estaduais – Fepam, Fundação Zoobotânica, Emater e Sema – para que elas sejam capazes de executar todas as atividades propostas no programa, que recebeu um financiamento do BID de US$ 5 milhões.

Conforme o coordenador do projeto, o biólogo Dennis Patrocínio, a meta é concluir sua implementação em fevereiro de 2015. “Já estamos superando algumas expectativas”, disse Dennis. Silvicultura O autor do livro “Forestación, territorio y ambiente: 25 anos de silvicultura transnacional em Uruguay, Brasil y Argentina, Pierre Gautreau, traçou um perfil sobre o cultivo de florestas na região, demonstrando que a prática da silvicultura tem feito a região perder grande parte de seu bioma. Segundo ele, havia uma promessa, principalmente no Uruguai, de que as grande empresas produtoras fariam a otimização produtiva, promoveria o desenvolvimento rural e a diversificação de cultura, o que não ocorreu. “As zonas específicas de silvicultura tem o pior Índice de Desenvolvimento Humano [IDH], o que mostra que essas regiões não evoluíram”, indica o doutor em Geografia.

Fonte: SEMA

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