| |
23/02/07 - Pesquisa com esponjas identifica agente de doença ocular no Araguaia
| |
 |
| |
Esponjas vivas amostradas no leito do rio Araguaia, Araguatins, Tocantins, evidenciando os ósculos através dos quais é devolvida ao ambiente a água do rio processada e filtrada por esses animais. |
 |
|
Bióloga gaúcha especialista na taxonomia de esponjas de água doce identifica agente do surto de doença ocular no rio Araguaia, em Tocantins.
O conhecimento do surto da doença ocular, que em 2005 atingiu 200 crianças e jovens no município de Araguatins, localizado à margem esquerda do rio Araguaia, no Tocantins, alertou a bióloga Cecília Volkmer Ribeiro, pesquisadora do Museu de Ciências Naturais da Fundação Zoobotânica do RS, e bolsista pesquisadora do CNPq, sobre a possibilidade das espículas de esponjas, que ocorrem em abundância naquela região, atuarem como agentes da coceira, penetração e lesões oculares. O importante era de que essas pessoas, na maioria crianças e jovens, mergulharam no rio de olhos abertos.
Numa atuação conjunta com a doutoranda da Universidade Federal de São Carlos, Twiggy Cristina Alves Batista, bióloga da Secretaria da Saúde do Estado do Tocantins, co-orientanda da Profª Cecília e parceiras há mais de oito anos no levantamento das esponjas do rio Araguaia, foi elaborado um documento de alerta encaminhado à Secretaria de Saúde do Tocantins e ao Ministério da Saúde. Como resultado dessa ação foram integradas várias equipes de pesquisa do país, coordenadas pelo Ministério da Saúde, destacando-se a liderada pelos Drs. Henrique Lenzi e Marcelo Pelajo Machado, do Departamento de Patologia e a pesquisadora Janice Coelho do IPEC, do Instituto Oswaldo Cruz. Os estudos envolveram também o Prof. Fernando Oréfice, do Departamento de Oftalmologia da Universidade Federal de Minas Gerais e o pesquisador Omar Carvalho, do Instituto René Rachou de Minas Gerais, além dos médicos oftalmologistas da Secretaria de Saúde do Estado do Tocantins, Leandro Alencar e Carlos Fonseca, que atenderam os pacientes na região.
Durante três décadas, a bióloga Cecília Volkmer Ribeiro vem se dedicando ao estudo da taxonomia e ecologia das esponjas de água doce do país. O levantamento dessa fauna no rio Araguaia foi iniciado com uma avaliação bibliográfica de estudos arqueológicos, visto que algumas culturas nativas da Amazônia produziam cerâmicas especiais, que continham na massa de argila espículas dessas esponjas, empiricamente utilizadas como antiplástico. Com o conhecimento das culturas originais foi possível avaliar tanto os efeitos quanto as causas da existência de esponjas em águas amazônicas. Entretanto, a perda desse conhecimento, pela discriminação e desvalorização das culturas nativas, tanto dos colonizadores como de seus descendentes, levou ao esquecimento das precauções dos nativos na abordagem das "águas com coceira".
Essa pesquisa identificatória de espículas silicosas com 14-20 micrômetros de diâmetro, encontradas dentro de olhos humanos, só foi possível graças ao trabalho meticuloso de descrições taxonômicas, contendo as características dessas estruturas nas distintas espécies de esponjas da Amazônia, realizado no Museu de Ciências gaúcho.
Esta descoberta foi publicada na revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Vol. 101 (8): 919-923, em 2006, (http://memorias.ioc.fiocruz.br/101(8).html).
Pesquisa:
As esponjas em questão têm um esqueleto espinhoso, composto de espículas que as tornam mais resistentes e que, uma vez dispersas na água, podem penetrar na pele, em tecidos conjuntivos e mucosas (olhos, boca, nariz e tubo digestivo) de pessoas e animais que entrem em contato com a água do rio. Antigas tribos indígenas que ocuparam a região já conheciam o perigo representado pelas esponjas em épocas de seca do rio, quando elas ficam expostas ao ar, secam e liberam as espículas. As águas ricas em espículas formavam uma espuma que os índios chamavam de cauí ou cauxi .
Como as esponjas fazem parte da biodiversidade aquática da Amazônia e sua erradicação pode gerar desequilíbrio ecológico, com outros danos à saúde humana, a única recomendação é a atitude preventiva, por meio da proibição do contato de crianças com a água do rio, do desenvolvimento de programas de educação em saúde ambiental e do alerta sobre a epidemia por administradores públicos e serviços comunitários de saúde.
Para complementar a pesquisa e aprofundar o conhecimento sobre a patologia, a equipe envolvida continua os procedimentos investigatórios ambientais e laboratoriais.
A pesquisa médica exercida em áreas tropicais tem características próprias, muito distintas daquela que se pratica em climas frios e temperados. Uma delas reside justamente na riqueza em biodiversidade dos trópicos, o que faz com que estudos faunísticos sejam necessários para o desvendamento de muitas doenças que ocorrem nessas regiões.
| |
 |
|
 |
|
| |
Avenida que costeia a margem do rio Araguaia em Araguatins. Ao longo desta situam-se as pousadas que abrigam os turistas em temporada de águas baixas (maio-setembro). |
|
Cais do porto em Araguatins na estação de águas altas. Um dos locais de incidência dos casos de doença ocular, freqüentado pelos moradores, que praticavam mergulho com olhos abertos. |
|
Fonte: Coordenadoria de Comunicação Social
Fundação Zoobotânica do RS
Fone: 3336.3281
Fotos: Twiggy Batista
|
|