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07/10/08 - Lista de Aves do Brasil é reeditada
No dia 5 de outubro comemora-se no Brasil o Dia Nacional das Aves. Neste ano de 2008, além das comemorações tradicionais, o Dia Nacional das Aves será também celebrado com a divulgação da sétima edição da "Lista das Aves do Brasil".
A "Lista das Aves do Brasil" é compilada pelo Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO - http://www.cbro.org.br/CBRO/index.htm), agremiação criada em 1999 e ligada à Sociedade Brasileira de Ornitologia (SBO). Integram o CBRO 40 ornitólogos de todo o Brasil e até residentes no exterior, mas que trabalham ativamente com aves no país em estrita parceria com colegas brasileiros. No CBRO, estes ornitólogos têm a tarefa de buscar e checar a autenticidade e qualidade das informações sobre novas espécies de aves descobertas, redescobertas (ou seja, que se acreditavam praticamente extintas), registradas pela primeira vez ou ainda aquelas antes consideradas sub-espécies (variedades), mas que atualmente foram elevadas para a categoria de espécies.
A cada ano, o CBRO divulga uma nova "Lista das Aves do Brasil", atualizando, portanto, o conhecimento sobre as aves que ocorrem no país. A novidade em 2008 é que a lista nacional passará a contar com 1.822 espécies (curiosamente, 1822 foi o ano da independência do Brasil), fazendo que o país se torne o segundo mais rico em aves do mundo, ultrapassando o Peru (com 1.820 espécies) e só perdendo para a Colômbia, com 1.865 espécies. É interessante notar que, desse total de espécies, 232 (13%) são endêmicas do país, ou seja, ocorrem exclusivamente no Brasil e, portanto, não podem ser vistas em nenhuma outra parte do mundo.
A lista de aves brasileiras é a que mais têm crescido a cada ano no mundo, devido principalmente ao aumento da atividade de ornitólogos no país (ver gráfico abaixo).

Evolução do número de espécies de aves registradas no Brasil no período de 1981 - 2008. O número passou de 1.590 em 1981 para 1.822 em 2008. As listas do CBRO passaram a ser divulgadas anualmente a partir de 2005 (anos sublinhados), mostrando a importância do trabalho do comitê em sistematizar em curtos períodos de tempo as informações disponíveis sobre a avifauna brasileira.
Um exemplo que ilustra bem um dos motivos deste crescimento acelerado é o pica-pau-do-parnaíba ( Celeus obrieni ), que até 2006 era conhecido apenas através de um único exemplar coletado no começo do século 20 no sertão de Piauí. A falta de registros dessa espécie levou vários ornitólogos a acreditar que ela talvez já estivesse extinta ou se tratasse de um híbrido, ou seja, uma variedade intermediária entre duas espécies diferentes. Logo depois de ter sido oficialmente redescoberta no estado de Tocantins em fins de 2006, o também foi registrado em várias localidades do estado do Maranhão e o número de registros vêm crescendo até hoje nestes estados, principalmente porque as vocalizações da espécie se tornaram conhecidas, facilitando tremendamente a sua localização. A redescoberta no estado do Maranhão foi extremamente importante também porque também permitiu a obtenção inédita de material genético da espécie, que já foi analisado e comprovou que o pica-pau-do-parnaíba é uma espécie de verdade e não um híbrido, como chegou a se acreditar. Ou seja, num prazo inferior a dois anos, o pica-pau-do-parnaíba saiu do anonimato que já durava décadas para integrar definitivamente a "Lista das Aves do Brasil" como uma espécie válida, um resultado obtido por vários ornitólogos e grupos de pesquisa atuando independentemente, mas compartilhando informações livremente.
Exemplos como o do pica-pau-do-parnaíba não são raros na história recente da ornitologia no Brasil, mas o principal motivo pelo qual a "Lista das Aves do Brasil" chegou a 1.822 espécies em 2008 deve-se sem dúvida ao problema das "espécies escondidas". O termo "espécies escondidas" indica casos onde várias sub-espécies / variedades antes consideradas como pertencentes a uma única espécie são desmembradas em várias espécies diferentes depois que estudos científicos comprovam sua independência evolutiva e, portanto, a necessidade de serem tratadas como espécies diferentes. Um estudo deste tipo mostrou em 2007, por exemplo, que o antigo papa-formiga-cantador ( Hypocnemis cantator ), endêmico da Amazônia, é na verdade composto por seis espécies diferentes, cada uma habitando um setor diferente da região. Um cálculo feito para a Amazônia com base em estudos sobre "espécies escondidas" produzidos nos últimos anos mostrou que, em média, para cada espécie da região estudada, três novas "espécies escondidas" são "descobertas" por estudos que geralmente integram ferramentas modernas como biologia molecular (sequenciamento de DNA) e bioacústica (estudo do canto) com aquelas tradicionais (estudo do morfologia).
Os números existentes sobre o problema das "espécies escondidas" têm gerado perplexidade na comunidade científica de todo o mundo, principalmente porque eles alteram grandemente as bases de dados sobre Biodiversidade utilizadas no planejamento da conservação. Das 1.822 espécies de aves reconhecidas para o Brasil em 2008 pelo CBRO, 160 (9%) estão listadas como ameaçadas de extinção nacionalmente pelo Ministério do Meio Ambiente, número que está também sendo revisto esse ano, mas já é considerado o maior do mundo. É ainda muito prematuro dizer se o aumento do número de espécies da "Lista das Aves do Brasil" vai também implicar num aumento do número de espécies de aves ameaçadas de extinção, mas, como regra geral, "espécies escondidas" tendem a possuir distribuições geográficas menores, sendo, portanto, mais vulneráveis e mais propensas e integrarem listas de espécies ameaçadas.
O Dia Nacional das Aves e a informação de que o Brasil agora possui 1.822 espécies de aves servem de alerta para a toda sociedade que a comunidade científica ainda precisa avançar muito no conhecimento sobre a diversidade de aves no país para uma melhor compreensão não só do que se deve preservar, mas também daquilo que se está perdendo rapidamente.
Membros do cbro para Contato
- Alexandre Aleixo - MPEG / Belém-PA - aleixo@museu-goeldi.br
- Glayson Bencke - FZB / Porto Alegre-RS - gabencke@fzb.rs.gov.br
- José Fernando Pacheco - Consultor / Rio de Janeiro-RJ - jfpacheco@terra.com.br
- Luís Fábio Silveira - USP / São Paulo-SP - lfsilvei@usp.br
Fonte: Assessoria de Imprensa CRBO
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